O cisne

Como um floco de espuma a boiar sobre o lago,
De uma candura tal que a pena não descreve,
O bico para trás, entre as asas de neve,
Cisma o cisne talvez em algum sonho vago.

Dorme toda a manhã, na quietação de um mago,
Que à vida se mostrar indiferente deve,
E só quando o sol fulge e corre a brisa, leve,
Abre as asas e vai a percorrer o lago.

Há muito vive só. Morreu-lhe a companheira
Num dia de verão e foi a vez primeira
Que se viu solitário e triste e desgraçado...

Por isso espera o sol, meditativo e crente,
E quando se lhe espelha a imagem n’água, sente
O prazer de gozá-la a nadar ao seu lado.

Niterói, 1923

Produção Digital: Silvia Avelar @ 2011